A Bíblia contada como história

Gênesis, desde o princípio

Dez partes, para ler em ordem. Do primeiro dia até Caim.

Parte 1

Os três primeiros dias

Gênesis 1:1-13

No princípio não há nada. Não há luz, não há forma, não há som. Só um vazio escuro e profundo, e águas que não se veem cobrindo tudo. Sobre essas águas, o Espírito de Deus paira, como alguém que espera.

Então Deus fala. Sua voz atravessa o escuro: "Faça-se a luz!" E a luz se faz. Ela irrompe do nada, clara e viva, e Deus olha para ela e vê que é boa. Ele separa a luz das trevas, chama a luz de dia e as trevas de noite. A tarde chega, depois a manhã. É o primeiro dia.

Deus fala de novo: "Faça-se um firmamento entre as águas, e separe umas das outras." E o céu se abre como uma abóbada, dividindo as águas de baixo das águas de cima. A tarde chega, depois a manhã. É o segundo dia.

Deus diz: "Que as águas debaixo do céu se juntem num mesmo lugar, e apareça o elemento árido." As águas obedecem. Elas recuam, se ajuntam, e a terra seca emerge, molhada e escura. Deus chama o seco de terra e o ajuntamento das águas de mar. E vê que é bom.

Então diz: "Produza a terra plantas, ervas com semente, árvores que deem fruto." E do chão ainda úmido brotam hastes verdes, folhas se desenrolam, galhos se estendem. Cada planta carrega sua semente, cada árvore seu fruto. Deus olha e vê que é bom. A tarde chega, depois a manhã. É o terceiro dia.

Parte 2

O céu, o mar e os animais

Gênesis 1:14-25

Deus fala outra vez: "Façam-se luzeiros no firmamento do céu para separar o dia da noite. Que sirvam de sinais e marquem o tempo, os dias e os anos." E assim se faz. Deus coloca no céu dois grandes luzeiros: o maior para presidir o dia, o menor para presidir a noite. E faz também as estrelas. Elas se acendem uma a uma, aos milhares, salpicando a escuridão. O céu que era vazio agora pulsa de luz. Deus olha e vê que é bom. A tarde chega, depois a manhã. É o quarto dia.

Deus diz: "Pululem as águas de seres vivos, e voem aves sobre a terra, debaixo do firmamento do céu." E as águas se enchem de movimento. Criaturas deslizam nas profundezas, monstros marinhos atravessam o escuro do oceano, cardumes giram como nuvens sob a superfície. Acima, asas batem o ar pela primeira vez. Aves cruzam o céu em todas as direções. Deus olha e vê que é bom. E os abençoa: "Frutificai e multiplicai-vos, enchei as águas do mar, e que as aves se multipliquem sobre a terra." A tarde chega, depois a manhã. É o quinto dia.

Deus diz: "Produza a terra seres vivos segundo a sua espécie: animais domésticos, répteis e animais selvagens." E assim se faz. Da terra surgem os que andam, os que rastejam, os que correm. Cada um segundo a sua espécie. Deus olha e vê que é bom.

Parte 3

O homem, a mulher e o descanso

Gênesis 1:26-2:3

Então Deus fala de novo, e desta vez há algo diferente em suas palavras: "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele reine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que se arrastam sobre ela."

E Deus cria o homem à sua imagem. Cria o homem e a mulher.

Eles estão ali, de pé sobre a terra nova, com o céu aberto acima e os animais ao redor. Deus os abençoa: "Frutificai e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra." E diz mais: "Eis que eu vos dou toda a erva que dá semente sobre a terra, e todas as árvores frutíferas que contêm em si mesmas a sua semente, para que vos sirvam de alimento. E a todos os animais da terra, a todas as aves do céu, a tudo o que se arrasta e em que haja sopro de vida, eu dou toda a erva verde por alimento."

E assim se faz. Deus contempla toda a sua obra. E vê que tudo é muito bom. A tarde chega, depois a manhã. É o sexto dia.

O céu, a terra e tudo o que há neles estão completos. No sétimo dia, Deus termina sua obra. E descansa. Abençoa o sétimo dia e o consagra, porque nesse dia descansou de tudo o que havia criado.

Parte 4

O jardim e a árvore

Gênesis 2:4-17

Antes de qualquer arbusto brotar, antes da chuva cair pela primeira vez, um vapor sobe da terra e umedece o chão. O Senhor Deus se inclina sobre o barro. Suas mãos moldam a argila escura, dão forma a um corpo: braços, pernas, um rosto. O homem está ali, deitado no chão, ainda sem vida. Então Deus se aproxima e sopra em suas narinas. O peito do homem se ergue. Seus olhos se abrem. Ele respira.

Deus o leva para um jardim. Fica no Éden, a leste, um lugar que o próprio Senhor plantou. Ali crescem árvores de toda espécie, de troncos fortes e folhas largas, carregadas de frutos bons para comer. No centro do jardim estão duas: a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal. Um rio nasce no Éden e rega o jardim, depois se divide em quatro braços que correm para longe — o Fison, que contorna a terra de Hévila, onde há ouro puro e pedras preciosas; o Geon, que circunda Cuch; o Tigre, que corre a leste da Assíria; e o Eufrates.

O Senhor coloca o homem no jardim para cultivá-lo e guardá-lo. Então diz: "Podes comer de todas as árvores do jardim. Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, não comas. No dia em que comeres, morrerás."

O homem escuta. Ao redor dele, o jardim respira.

Parte 5

A mulher

Gênesis 2:18-25

O Senhor Deus olha para o homem e diz: "Não é bom que esteja só. Vou dar-lhe uma auxiliar que lhe seja adequada."

Então forma da terra todos os animais dos campos e todas as aves do céu, e os leva ao homem. Um a um, eles se aproximam. O homem os observa, estuda os olhos, o pelo, o modo de andar. E dá nome a cada um. Os que voam, os que correm, os que rastejam — todos recebem um nome, e esse nome fica sendo o deles. Mas entre tantos seres vivos, nenhum serve como auxiliar para o homem. Ele está cercado de criaturas e ainda assim está só.

O Senhor Deus então faz cair sobre ele um sono profundo. O homem dorme, o peito subindo e descendo devagar. Deus toma uma de suas costelas e fecha o lugar com carne. Daquela costela, forma uma mulher. E a leva até o homem.

Ele abre os olhos. Ela está diante dele. O homem olha para ela e fala pela primeira vez: "Eis aqui agora o osso dos meus ossos e a carne da minha carne. Ela se chamará mulher, porque foi tomada do homem."

Por isso o homem deixa pai e mãe para se unir à sua mulher, e os dois se tornam uma só carne.

Eles estão ali, no jardim, sob a luz do Éden. Nus, os dois. E não sentem vergonha nenhuma.

Parte 6

A serpente

Gênesis 3:1-7

A serpente é o mais astuto de todos os animais que o Senhor Deus formou. Ela se aproxima da mulher e fala: "É verdade que Deus proibiu vocês de comer do fruto de toda árvore do jardim?"

A mulher responde: "Podemos comer do fruto das árvores do jardim. Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: vocês não comerão dele, nem o tocarão, para que não morram."

A serpente inclina a cabeça: "Oh, não! Vocês não vão morrer. Deus bem sabe que, no dia em que comerem, os olhos de vocês vão se abrir. Vocês serão como deuses, conhecedores do bem e do mal."

A mulher olha para a árvore. O fruto é bom para comer, ela pode ver. Tem um aspecto agradável. E é apropriado para abrir a inteligência — a serpente acabou de dizer. Ela estende a mão. Toma o fruto. Come.

O marido está ali. Ela oferece a ele. Ele come também.

Então os olhos dos dois se abrem. Eles se olham. Veem o próprio corpo, veem o corpo do outro. A pele exposta, os braços, as pernas, tudo à mostra. Onde antes não havia nada para esconder, agora há. Eles não se movem por um instante. Depois se abaixam, arrancam folhas de figueira, amarram umas nas outras com as mãos apressadas. Fazem tangas para cobrir o que não suportam mais ver descoberto.

O jardim continua ao redor deles. Mas alguma coisa mudou.

Parte 7

Deus no jardim

Gênesis 3:8-19

A brisa da tarde sopra entre as árvores. E então eles ouvem. Passos. O Senhor Deus caminha pelo jardim.

O homem agarra o braço da mulher. Os dois correm para o meio das árvores, se agacham atrás dos troncos, prendem a respiração. O coração bate forte contra as costelas.

A voz do Senhor atravessa o jardim: "Onde estás?"

O homem engole em seco. Responde, a voz saindo baixa: "Ouvi o barulho dos teus passos no jardim. Tive medo, porque estou nu. E me escondi."

"Quem te revelou que estavas nu? Comeste do fruto da árvore que eu te proibi de comer?"

O homem olha para a mulher ao seu lado. Então diz: "A mulher que puseste ao meu lado me deu do fruto. E eu comi."

O Senhor se volta para ela: "Por que fizeste isso?"

A mulher responde: "A serpente me enganou. E eu comi."

Então o Senhor fala à serpente: "Porque fizeste isso, serás maldita entre todos os animais. Andarás de rastos sobre o ventre e comerás pó todos os dias da tua vida. Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Ela te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar."

À mulher, diz: "Multiplicarei os sofrimentos do teu parto. Darás à luz com dores. Teus desejos te impelirão para o teu marido, e ele terá domínio sobre ti."

Ao homem: "Porque ouviste a voz da tua mulher e comeste do fruto, maldita seja a terra por tua causa. Com trabalho penoso tirarás dela o sustento, todos os dias da tua vida. Ela te dará espinhos e ervas bravas. Comerás o pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de onde foste tirado. Porque és pó. E ao pó voltarás."

Parte 8

Fora do Éden

Gênesis 3:20-24

O homem olha para a mulher. Ela carrega agora o peso de tudo o que virá — as dores, os filhos, a vida que vai nascer dela. Ele lhe dá um nome: Eva, porque ela será a mãe de todos os viventes.

As folhas de figueira ainda cobrem seus corpos. Mas o Senhor Deus faz algo que eles não esperavam. Toma peles de animais, corta, costura. Faz vestes para os dois. E os veste com as próprias mãos.

Então o Senhor diz: "Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal. Agora, cuidemos que ele não estenda a mão e tome também do fruto da árvore da vida, e o coma, e viva eternamente."

O Senhor Deus os expulsa do jardim. Para fora. Para a terra de onde o homem foi tirado, a terra que agora está maldita, a terra que ele terá de trabalhar com suor e fadiga.

Eles atravessam a saída do Éden. Os pés descalços tocam um chão diferente. Atrás deles, o jardim ainda respira, as árvores ainda carregam frutos, o rio ainda corre. Mas o caminho de volta está fechado.

O Senhor coloca querubins ao oriente do jardim — seres de fogo e asas. Nas mãos deles, uma espada flamejante gira sem parar, cortando o ar em todas as direções. Ela guarda o caminho da árvore da vida.

O homem e a mulher seguem em frente. O Éden fica para trás.

Parte 9

Caim e Abel

Gênesis 4:1-8

Adão conhece Eva, sua mulher. Ela concebe e dá à luz um filho. Quando o menino nasce, ela diz: "Gerei um homem com a ajuda do Senhor." E o chama de Caim. Depois vem outro, Abel. Os dois crescem na terra fora do Éden. Abel se torna pastor de ovelhas. Caim trabalha a terra, como o pai.

Passado algum tempo, Caim traz frutos da terra e os oferece ao Senhor. Abel também traz uma oferta — os primeiros cordeiros do seu rebanho, a gordura deles, o que há de melhor. O Senhor olha com agrado para Abel e para o que ele trouxe. Mas para Caim e para os seus dons, não olha.

O rosto de Caim muda. A mandíbula trava, os olhos escurecem, os ombros descem. Ele fica ali parado, o corpo pesado de raiva.

O Senhor fala com ele: "Por que estás irado? Por que está abatido o teu semblante? Se praticares o bem, poderás te reabilitar. Mas se procederes mal, o pecado está à tua porta, espreitando. Tu deverás dominá-lo."

Caim não responde.

Mais tarde, ele se aproxima do irmão: "Vamos ao campo."

Os dois caminham juntos. O campo se abre ao redor deles, vazio, sem testemunhas. Então Caim se vira. Atira-se sobre Abel.

O corpo do irmão cai na terra. Não se levanta.

Parte 10

A marca de Caim

Gênesis 4:9-16

O sangue de Abel encharca a terra. Caim está de pé, as mãos ainda tremendo.

A voz do Senhor atravessa o silêncio: "Onde está teu irmão Abel?"

Caim levanta o queixo. "Não sei. Sou eu o guarda do meu irmão?"

"Que fizeste!" A voz do Senhor pesa como pedra. "A voz do sangue do teu irmão clama por mim desde a terra. De agora em diante, serás maldito e expulso desta terra — a mesma terra que abriu a boca para beber da tua mão o sangue do teu irmão. Quando a cultivares, ela te negará os seus frutos. E tu serás peregrino e errante sobre a terra."

Caim recua um passo. O rosto se contorce. "Meu castigo é grande demais para que eu possa suportar. Eis que me expulsais deste lugar, e eu devo me esconder longe da vossa face, tornando-me um peregrino errante. O primeiro que me encontrar vai me matar."

O Senhor responde: "Não. Aquele que matar Caim será punido sete vezes."

Então o Senhor coloca em Caim um sinal — uma marca visível, para que qualquer um que o encontrasse soubesse: este homem não deve ser tocado.

Caim se afasta. Deixa para trás o campo onde o corpo do irmão ainda jaz. Deixa para trás a presença do Senhor. Caminha para o oriente, além do Éden, até chegar a uma região chamada Nod — que quer dizer errância.

Ali ele se estabelece. Sozinho.